Resgate das nascentes urbanas – São Paulo

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São Paulo é uma metrópole com características muito particulares. Recebe de braços abertos gente vinda de todos os cantos, do país e do exterior, somando hoje algo próximo dos 20 milhões de habitantes, que formam um mix único. Japoneses, italianos, portugueses, alemães, chineses, árabes, e outros, estabeleceram aqui grandes comunidades, que via de regra são maiores que as existentes nas suas comunidades de origem. A cidade cresceu (e segue crescendo) desordenadamente, sem respeito por nada e ninguém, e os espaços urbanos resultantes desta dinâmica refletem a Babel cultural que abrigam.

Planta de 1905 da cidade de São Paulo mostra os cursos dos rios Tietê, Anhangabaú, Tamanduateí, Pinheiros e seus diversos afluentes.

O paulistano vive imerso nesta riqueza cultural extraordinária, porém a conformação da cidade não facilita o encontro, a troca, não oferece na quantidade necessária espaços públicos que possam promover interação, não “azeita” as relações entre seus habitantes, que transitam na aridez cimentada de uma grande urbe parcamente arborizada, no mais das vezes, sem acesso aos poucos parques que a cidade oferece, e se o habitante sofre, o habitat então, nem se fale! 

Rios Poluídos hoje

Rio Tietê em 1905

Rio Tietê em 1905

Não sabemos dizer se há maldade pior a cometer com o meio ambiente, que soterrar a nascente dos seus rios, e isto foi feito aqui indiscriminadamente, sem a menor preocupação ou planejamento, de sorte que hoje raramente se pode ver alguma das nossas inúmeras nascentes(veja na imagem abaixo), em especial as presentes nas encostas do espigão que corta a cidade. Só temos delas alguma lembrança de existência, pois muitas das edificações bombeiam incessantemente para o meio-fio ou para as galerias de águas pluviais, límpida água que mina em seus subterrâneos, enquanto a metrópole precisa importar água de outros municípios para consumo da população, e óbvio, também lidar constantemente com enchentes devastadoras.

Rios de São Paulo

Arquivo Rios e Ruas

O processo segue sem combate, a população aumenta, e importamos mais água, construímos mais, adensamos mais, impermeabilizamos mais solo, não obstante o alto preço social das enchentes decorrentes desta cruel equação, e a população nem pode se valer da contrapartida, posto que tudo isto se dá sem que os raros espaços públicos criados se conformem como espaços de encontro, e assim nossa riqueza cultural queda apenas como potencial. Carentes de planejamento fino, que considere a população imediatamente envolvida, tanto as intervenções da municipalidade, quanto as da iniciativa privada, ainda geram vez ou outra nesgas inúteis, que acabam por se tornar grave problema, posto que justamente pela falta de uso, passam a abrigar atividades ilícitas, ocupações desordenadas, consumo e venda de drogas, etc…

Último rio totalmente limpo da capital, o Capivari

Dar bom uso aos espaços públicos existentes não é suficiente. Não só temos que nos apropriar destas nesgas esquecidas, como é preciso criar mais, sempre objetivando o convívio e contato dos usuários, entre eles e a natureza. Pelo olhar do ambientalista não há lugar mais indicado para dar início à requalificação do meio ambiente que a nascente de um rio, e nossa cidade conta com inúmeras… As nascentes tem seus anfiteatros naturais, esta conformação geológica propicia o encontro, como seu próprio nome indica, então ao elencar os espaços requalificáveis que uma urbe dispõe, deve-se dar especial atenção à estas áreas, também porque o resgate de uma nascente é forte vetor de conscientização quanto ao ciclo das águas, consumo consciente, e procedimentos sustentáveis, que podem incluir o aproveitamento pela comunidade circunvizinha. Estes espaços são particularmente estratégicos, assim como seu resgate e apropriação. A preservação pelo uso é o único caminho possível, mas na nossa cidade não basta atentar para o óbvio, novos espaços de encontro e convívio podem ter lugar a partir da implementação de novos usos para espaços existentes, e até de solo criado
Leituras
http://rioseruas.wordpress.com/category/imagens/
Mapa Afetivo das Nascentes Paulistanas
As sagas de Rios de Pinheiros
Entenda por que os rios de Sao Paulo são podres

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About Oscar Müller

Arquiteto, urbanista, brincante.

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